O começo de uma coisa maior e de um dilema
Galciani Neves



“Eu não sei dizer
nada por dizer
então eu escuto
se você disser
tudo o que quiser
então eu escuto”.
Secos e Molhados




costurar, mover-se: como contato, rastro

As definições de movimento suscitam muitos impasses: a simples fluidez de um processo, as marcas que os acontecimentos e os sujeitos neles implicados deixam, o encadeamento de gestos e como eles atravessam o corpo. Tentações teorizantes à parte, talvez perceber o mover-se das coisas seja admitir que se trata de um ritmo imprevisível e injustificável, no qual é preciso querer perder-se, sem esforçar-se em delimitar um fio de lógica e coerência no movimento – ir e deixar ir. 

Incentivada por essa percepção, Guga Szabzon costura, move-se na pele do tecido. Constrói uma linha que desemboca em outras e na falta de rumo, contiguamente. Isto é, a linha ocorre modificando-se e deixando rastros nada óbvios. A artista demarca relações, muda as cores também. E vai saltando de um tecido a outro que são seus territórios. Sua linha é rio sem destino.

Assim, mover-se como procedimento é como a artista distancia a linha de uma mera noção de limite ou contorno, égide sobre a qual o desenho obriga a linha a sobreviver. A linha de Guga é brincante, fugidia e, por isso mesmo, aventureira. Sua linha não se cansa de vagar e correr riscos. Ela pode findar-se, separar-se, bifurcar-se e até mesmo abandonar a ideia de ser linha, contendo-se. Sem freio, pode errar e frustrar a continuidade do movimento (e isso também é movimento). Sua linha é dança.

A linha de Guga Szabzon sobrevive de cada um de seus pontos e mudanças de rota em seu percurso. Pode ser percebida como um projeto que se abre ao encontro com a ausência, com a encruzilhada de outras tantas linhas, para adiante percebe-se em fragmentos que debandaram sem avisar. Sua linha não se repete e, em sua incerteza, caminha para acontecer com o tecido. Depois escapa e deixa tudo cheio.

um pequeno canto do mundo onde tudo que é vivo um dia pode emergir

Começar um trabalho é como destravar a língua para confessar um erro imperdoável. Cortar o tecido, colocar a máquina em movimento. Isso leva tempo: “todos os dias. (...) Mas tem dias que não dá”. A agulha perfura, faz os caminhos, enquanto o tecido vai sendo girado em seu eixo. E ainda tem o verso. Leva tempo para que tudo aconteça.

O ateliê de Guga Szabzon é um lugar de enfrentamentos: as paredes brancas chamam para a conversa, os tecidos cortados e seus fiapos estão sempre avançando, jogando-se, oferecendo-se, e o buraco no chão mole assombra quem pisa na sala da frente. O ateliê é o seu lugar para ir longe demais e sempre olhar para trás. Ali, uma tempestade de palavras, de histórias, de mapas, de incontáveis linhas escorrem e se grudam nos tecidos e vão surgindo como visualidades fragmentadas. Guga parece operar por montagem, sobreposição, junção, escutando e atraindo muitas vozes que não a deixam repousar. Ainda assim, o ateliê é um canto de efervescência, mesmo diante de tanta dor.

O excesso de ordem se aplicado a esses retalhos de história que figuram nos trabalhos de Guga os submeteria a uma clareza insípida, embora tudo seja muito simples. Rio pode ser ou conter pedra. Pedra pode ser ou conter rio. A história do Galo de Fogo está nos esperando atrás da porta. Um leste inventado aponta um caminho entre “você” e “eu”. Enquanto um Planeta Saturno promete: “tá tudo bem”. Não é possível contar todas as linhas, todos os pontos, nem as palavras. Tem erro em tudo, ela garante. Guga continua seu trabalho de ateliê. Para ela, é preciso estar muito tempo ali, construindo ritmo mais do que qualquer outra coisa. É um ritmo de lugar e de corpo, de corte, de costura, de prego na parede, de monta, olha, troca de lugar. O que faz parecer que tudo está fresco, quente, sempre começando. Os números não conhecem esse ritmo, nem adianta contabilizar com os dedos.  

antes que o dia nos sufoque

Uma palavra pode romper o bem-estar. Pode atrapalhar o bom censo. Cabem na palavra, ao mesmo tempo, o horror do desconhecido que não se explica e a certeza do que parece natural, ordinário, que esteve por perto desde sempre. A glória e o lamento do ser humano, essa é a grande coisa de ser palavra, diria Giorgio Agamben. A presença da palavra nos trabalhos de Guga Szabzon são evasões da labuta da escrita, não foram feitas para ser texto, tampouco literatura. Perecem pertencer a um estágio anterior de forma (e não confundir isso com ingenuidade). São mais a pronúncia, a materialidade do impulso verbal, quando uma bomba explode na boca e o estrondo chega ao outro, numa interface que faz oscilar o tempo da escuta, o lugar de entendimento, o gesto de esculpir sua superfície de significados.

O ritmo e o fluxo das palavras nesses trabalhos acompanham a materialidade dos tecidos, convivem com linhas, com texturas, penetrando sem barreira as composições. Entre o desabafo, invenções de nexos da imaginação, reminiscências da memória e de acontecimentos biográficos, essas palavras embaralham a evidência de seus significados e das coisas a que poderiam se remeter para voltar a ser uma armadilha.

Tratam-se de uma espécie de registro de um corpo que vibra e que se desabriga para experienciar um maravilhoso perigo. E isso vai criando texturas no corpo que vão sendo cerzidas e transplantadas com a mesma intensidade de seu impactos primeiros. Guga costura a palavra para semear inquietude e fascínio, ou, quem sabe, para estar junto a um dilema.