Fato consumado
por Thais Rivitti







Nome sugestivo o que a artista Guga Szabzon escolheu para a sua exposição: “Raspadinha”, assim, no diminutivo. Além de ser o termo pelo qual ficou conhecida loteria instantânea no Brasil, é o nome de uma mistura de lascas de gelo e suco de frutas vendida na praia. E é também motivo de grandes polêmicas em artigos que discutem a preferência sexual do brasileiro no que diz respeito à apresentação feminina na hora h: raspadinha ou peludinha?
A exposição de Guga não tem nenhum conteúdo explicitamente sexual – não a princípio – embora seja fácil perceber que ela se articula de modo erótico. Pelo menos num sentido, derivado de certa leitura do mito grego Eros e Pisque. Nele Pisque, ao iluminar o rosto do amado Deus Eros para finalmente conhecer suas feições, acaba por afastá-lo. Fechar os olhos diante do desejo, recusar-se a cumpri-lo, eis a tarefa perante a qual Psique falha.

Desejo, curiosidade, vontade de conhecer o que está encoberto. Esse também é o jogo armado pela artista. O público é impelido a comprar a obra para saber o que ela esconde. Evidentemente, o que está em jogo aqui, diferentemente do mito, não é uma jornada de auto-conhecimento e amadurecimento. Mas a sedução fácil do consumo, um pseudo-mistério criado por aqueles objetos.
Traiçoeiro é o destino daqueles que sucumbem ao desejo, pagando, literalmente nesse caso, seu preço. Só depois, diante de uma página em branco, descobrem que conhecer e destruir às vezes são coincidentes.
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Monocromáticos

As pinturas monocromáticas de Guga Szabzon são dispostas regularmente, em duas fileiras paralelas, ocupando todas as paredes disponíveis da galeria em que se instala. Retângulos de papel branco recobertos por uma tinta cinza um tanto cintilante.

Há sutis diferenças entre as 184 peças. Tão sutis que o olho dificilmente as reconhece. Uma pequena rebarba de um lado de um dos retângulos pintados, uma reta ligeiramente desalinhada, bobagens. Pode-se dizer que são iguais, embora feitas uma a uma, manualmente.

Numeradas, as pinturas parecem aspirar uma individualidade que não encontra respaldo nas formas repetidas à exaustão. A progressão dos números, num crescendo, não tem correspondência na mesmice das imagens. A monotonia do conjunto é radical, a ponto de fazer as telas de Today series, do seminal artista conceitual japonês On Kawara parecerem verborrágicas.

Dispostas nas paredes da galeria, parecem ser os objetos perfeitos para aquele ambiente: ele também cinza (do chão) e branco (das paredes e teto) e simétrico. Do espaço, as pinturas também conservam uma estrutura aparente, sem mistérios: retângulo sobre retângulo. Uma exposição feita para o lugar, pensado na tradição do cubo branco, que a abriga. Mimetiza-se nesse espaço e também o sintetiza.

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Sem censura?

A exposição “Raspadinha”, de Guga Szabzon, exibe, em 184 quadros, aquilo que não pode ser exposto. As (supostas) imagens aparecem todas veladas por uma tarja cinza, como se seu conteúdo fosse ofensivo demais e tivessem sido censuradas. Apenas aqueles que compram uma das obras poderão ter acesso àquilo que está por trás da camada de tinta metálica. Normalmente, relaciona-se a censura aos momentos históricos em que o Estado aparece como forte agente controlador e regulador: as recentes ditaduras militares na América Latina, alguns países do assim chamado “mundo árabe”, Cuba sob o regime de Castro, a China. Como se a censura fosse algo do passado, ou, pelo menos, estivesse com seus dias contados. A atual conjuntura, em que o poder encontra-se muito mais nas mãos de grandes empresas multinacionais do que propriamente com representantes do poder público dos Estados nacionais parece estar distante de tal realidade. Em “Raspadinha” mercado e censura aparecem intimamente ligados. A ação estabelece o vínculo entre o ato de compra e a possibilidade de conhecer o que não está posto publicamente. Talvez censura não seja mais um termo apropriado. Mas é inegável que a lei do mercado também apresenta sua face coerciva. No campo da arte, o fato de a galeria – e com ela todo um sistema de compra e venda de obras – ser o espaço privilegiado para ver arte contemporânea diz algo sobre isso.